Comentário editorial
Referenciar ou não referenciar para reabilitação cardíaca após síndroma coronária aguda
To be or not to be referred for cardiac rehabilitation after acute coronary syndrome
Jorge Ferreira
Serviço de Cardiologia, Hospital de Santa Cruz – CHLO, Carnaxide, Portugal

As síndromas coronárias agudas (SCA) associam‐se a mortalidade significativa na fase aguda, que tem vindo a ser reduzida de modo consistente nos últimos anos1,2. Este aumento da sobrevivência tem condicionado uma preocupação crescente com a recorrência elevada de eventos vasculares fatais e não fatais, com impacto negativo no prognóstico e na qualidade de vida a médio e longo prazo2,3. Neste contexto, a implementação da prevenção secundária, com terapêutica médica otimizada e modificação do estilo de vida, é essencial para a redução dos eventos vasculares recorrentes, devendo ser implementada num programa bem estruturado de reabilitação cardíaca (RC)3.

A RC é constituída por um conjunto abrangente de intervenções para promoção da saúde que incluem, para além do treino de exercício, a educação com aconselhamento dietético, o controlo dos fatores de risco incluindo a cessação tabágica e a adesão à terapêutica, bem como suporte psicossocial, geralmente em regime ambulatório4. O benefício da RC na doença coronária está bem estabelecido. Numa meta‐análise com um total de 14486 doentes incluídos em 63 estudos, com uma mediana de seguimento de um ano, a RC associou‐se a uma redução de 26% no risco relativo de morte cardiovascular e de 18% no risco relativo de hospitalizações5. Este impacto na história natural da aterotrombose coronária relaciona‐se com os efeitos protetores do exercício físico no perfil lipídico, na pressão arterial, na inflamação e no potencial trombogénico6.

Apesar do extenso benefício demonstrado pela RC5,7, o programa baseado no treino de exercício é claramente subutilizado, por motivos relacionados com os médicos referenciadores, com os doentes e com a organização8.

No presente número da revista, Sílvia Aguiar Rosa et al. avaliaram os preditores de incremento da capacidade funcional em 129 doentes que realizaram um programa de RC após SCA, e que efetuaram prova de esforço cardiorrespiratória (PECR) antes e após 36 sessões de treino de exercício9.

Entre os parâmetros da PECR basal, a deteção de um consumo de oxigénio no pico (pVO2) inferior a 20ml/kg/min associou‐se a um aumento significativo na variação do pVO2 em comparação com os doentes que apresentaram um pVO220ml/kg/min (+4,4 versus+1,6; p=0,018), da percentagem do pVO2 previsto (+17,9% versus+4,0%; p=0,009) e do produto pVO2 pela pressão arterial sistólica no pico (+883,3 versus 238,5mmHg.ml/kg/min; p=0,015) entre a PECR basal e após RC. A deteção de uma fração de ejeção ventricular esquerda deprimida ou intermédia não se associou a maior benefício da RC, avaliado pelo incremento da capacidade funcional.

A recorrência de eventos vasculares major foi baixa num seguimento médio de cinco anos, atestada por uma mortalidade anual de 0,9% e por uma incidência anual de SCA de 1,2%, que pode ser explicada pela elevada adesão à terapêutica médica, ao controlo dos fatores de risco e à implementação de um estilo de vida saudável.

Os autores concluem que a deteção de uma capacidade funcional deficiente na PECR, que no presente estudo representou 25% de uma população heterogénea após SCA referenciada para RC, se associou a maior benefício do treino de exercício. Esta estratégia pode otimizar a utilização dos recursos de RC, que são relativamente escassos em Portugal.

Conflito de interesses

O autor declara não haver conflito de interesses.

Referências
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