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Artigo Original
Jogos de futebol impróprios para cardíacos (HeartAtaque trial) – Estudo piloto prospetivo
Are soccer matches dangerous for patients with heart disease? The HeartAtaque trial – a prospective pilot study
José Luís Martinsa,, , Tiago Adregaa, Luís Santosa, Vera Afreixob, Jesus Vianaa, José Santosa
a Serviço de Cardiologia, Centro Hospitalar Baixo Vouga, Aveiro, Portugal
b Departamento de Matemática, Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal
Recebido 30 Maio 2017, Aceitaram 24 Setembro 2017
Relacionado:
Rev Port Cardiol 2018;37:655-6
Resumo
Introdução

Fatores comportamentais e emocionais são desencadeantes de eventos cardiovasculares (ECV). Permanece incerto se espetadores de jogos de futebol, em particular indivíduos com doença arterial coronária (DAC), estão expostos a maior risco de ECV.

Objetivos

Avaliar o efeito da assistência a jogos de futebol em doentes com DAC na incidência de ECV de acordo com o resultado obtido pela equipa de apoio.

Métodos

Avaliados prospetivamente 82 adeptos de futebol do sexo masculino com antecedentes de síndrome coronária aguda, durante 23 jogos de futebol da época 2015/2016. Cada indivíduo foi monitorado com Holter no dia do jogo da sua equipa e em dia controlo em período homólogo à hora do jogo. Avaliado como endpoint primário o composto de morte, acidente vascular cerebral, re‐enfarte, angor ou arritmias mantidas. Avaliados ainda como endpoints secundários, episódios de disritmia supraventricular ou ventricular não mantida e frequência cardíaca média.

Resultados

A idade média foi 61 ± 10 anos. Comparado com o dia controlo, apesar do aumento significativo da frequência cardíaca na hora de jogo (p < 0,001) que foi independente do resultado (p > 0,97), o número de eventos cardiovasculares não foi diferente tendo em conta o resultado (p > 0,05). Também o número de episódios de disritmia supraventricular e ventricular não mantida não foi diferente estratificando de acordo com o resultado (p > 0,05).

Conclusão

O resultado do jogo não se associou a diferente incidência de eventos cardiovasculares em doentes com substrato isquémico e arrítmico por antecedentes de DAC que assistiram a jogos de futebol na televisão.

Abstract
Introduction

Behavioral and emotional factors are triggers of cardiovascular events (CVEs). It is uncertain whether soccer fans, particularly individuals with coronary artery disease (CAD), are at increased risk for CVEs.

Objectives

To assess the effect of watching soccer matches in patients with known CAD on the incidence of CVEs according to the match result.

Methods

We prospectively assessed 82 male soccer fans with a history of acute coronary syndrome during 23 matches of the 2015/2016 season. Each individual was assessed by Holter monitoring on the day of their team's match and on the control day. The primary endpoint was the composite of death, stroke, reinfarction, angina or sustained arrhythmia. Secondary endpoints assessed were episodes of non‐sustained supraventricular or ventricular arrhythmia and mean heart rate (HR).

Results

Participants’ mean age was 61±10 years. Compared with the control day, despite a significant increase in HR (p<0.001) that was independent of the result (p>0.97), the number of CVEs did not differ according to the result (p>0.05). Moreover, the number of non‐sustained episodes of supraventricular and ventricular arrhythmia did not differ when stratified according to the match result (p>0.05).

Conclusions

The match result was not associated with a difference in incidence of CVEs in patients with a past history of CAD, with ischemic and arrhythmic substrate, who watched soccer matches on television.

Palavras‐chave
Eventos cardiovasculares, Futebol, Stresse
Keywords
Cardiovascular events, Soccer, Stress
Introdução

A incidência de morte súbita cardíaca nos países europeus é de cerca de 1 por 1000 habitantes, com a doença arterial coronária (DAC) a ser responsável por grande parte desses casos, resultado de disritmias ventriculares. Por sua vez, está também bem documentado que os doentes com revascularização incompleta apresentam maior risco de arritmias malignas comparativamente aos doentes com revascularização completa1–3.

É sabido que fatores ambientais, comportamentais ou emocionais, como guerras, ataques terroristas ou sismos, são desencadeantes de eventos cardiovasculares (ECV)4–10.

O futebol é um desporto amplamente difundido em nível global, muitas vezes cursa com uma intensa ligação emocional dos seus adeptos e com uma crença popular de ser potencialmente despoletante de ECV.

No entanto, estudos prévios que envolveram apoiantes de jogos de futebol são contraditórios. Se, por um lado, são vários os registos que mostram um aumento de ECV associado a jogos de futebol importantes, outros autores relatam um efeito protetor na incidência de ECV no período que envolve esses mesmos jogos11–18.

Leeka et al. e Culic, por exemplo, realçam a importância do jogo, a intensidade do mesmo e o resultado final como fatores contributivos importantes para a associação com ECV19,20.

Uma limitação importante a todos os estudos prévios prende‐se não só com o facto de se basearem em registos retrospetivos, mas também de partirem da premissa de que um evento possa ter impacto em toda a população, independentemente do substrato cardíaco, efetiva exposição ao jogo, níveis de ligação emocional com o desporto e equipa.

Permanece, assim, incerto se espetadores de jogos de futebol e, em particular indivíduos com doença arterial coronária (DAC) estão expostos a maior risco de ECV.

O objetivo deste trabalho foi avaliar prospetivamente o efeito da assistência a jogos de futebol em doentes com DAC na incidência de ECV de acordo com o resultado obtido pela equipa de apoio.

Métodos

Estudo prospetivo, unicêntrico, incluiu indivíduos com antecedentes de enfarte agudo do miocárdio com elevação do segmento ST [EAMcEST] (com ou sem revascularização completa) ou síndrome coronária aguda sem elevação do segmento ST [SCAsEST] com revascularização incompleta, apoiantes de futebol de um dos três clubes de maior dimensão em Portugal (Sporting Clube de Portugal [SCP], Sport Lisboa e Benfica [SLB] ou Futebol Clube do Porto [FCP]) ou da Seleção Nacional de Futebol, avaliados em jogos de futebol, durante uma época desportiva (Tabela 1).

Tabela 1.

Jogos e resultados incluídos no estudo

Jogo  Resultado 
Supertaça de Portugal 09/08/15 ‐ 20h45  SCP vs SLB 1:0 
Liga Portuguesa 20/09/15 ‐ 19h15  FCP vs SLB 1:0 
Liga Portuguesa 25/10/15 ‐ 17h00  SLB vs SCP 0:3 
Taça de Portugal 21/11/2015 ‐ 20h  SCP vs SLB 2:1 
Liga Portuguesa 02/01/16 ‐ 20h45  SCP vs FCP 2:0 
Liga Portuguesa 12/02/16 ‐ 20h30  SLB vs FCP 1:2 
Liga Europa 18/02/2016 ‐ 20h05  SCP vs Bayer Leverkusen 0:1 
Liga Portuguesa 05/03/2016 ‐ 20h45  SCP vs SLB 0:1 
Liga Portuguesa 16/04/2016 ‐ 20h45  Moreirense vs SCP 0:1 
Liga Portuguesa 24/04/2016 ‐ 20h30  Rio Ave vs SLB 0:1 
Liga Portuguesa 30/04/2016 ‐ 18h30  FCP vs SCP 1:3 
Liga Portuguesa 08/05/2016 ‐ 20h30  Marítimo vs SLB 0:2 
Liga Portuguesa 15/05/2016 ‐ 17h  SLB vs Nacional 4:1 
Final taça de Portugal 22/05/2016 ‐ 17h15  FCP vs Braga 2:4 
Euro 2016 14/06/2016 ‐ 20h00  Islândia vs Portugal 1:1 
Euro 2016 18/06/2016 ‐ 20h00  Áustria vs Portugal 0:0 
Euro 2016 22/06/2016 ‐ 17h00  Hungria vs Portugal 3:3 
Euro 2016 25/06/2016 ‐ 20h00  Croácia vs Portugal 0:1 
Euro 2016 30/06/2016 ‐ 20h00  Polónia vs Portugal 1:1 (3‐5 gp) 
Euro 2016 06/07/2016 ‐ 20h00  Portugal vs País de Gales 2:0 
Euro 2016 10/07/2016 ‐ 20h00  Portugal vs França 1:0 (ap) 
Supertaça de Portugal 07/08/15 ‐20h45  SLB vs Braga 3:0 
Liga Portuguesa 28/08/16 ‐ 18h  SCP vs FCP 2:1 

SCP: Sporting Clube de Portugal; SLB: Sport Lisboa e Benfica; FCP: Futebol Clube Porto; ap: após prolongamento; gp: grandes penalidades.

Todos os indivíduos tiveram internamento prévio ao estudo, motivado pelo evento agudo, e foram obtidos de cada indivíduo as características demográficas, os antecedentes pessoais (inclusive os fatores de risco cardiovasculares, o ecocardiograma transtorácico à data alta e a anatomia coronária por coronariografia), o estudo analítico relevante feito no internamento, a terapêutica farmacológica em curso e ainda o stresse basal crónico avaliado pela Perceived Stress Scale21.

Todos os indivíduos referiam ver regularmente na televisão futebol e apoiar a sua equipa, com todos a observarem o jogo da sua equipa na televisão. Foi usada para a sua seleção uma escala de fanatismo validada Football Supporter Fanaticism Scale, numa escala ordinal de 1 a 5 (Tabela 2) 22–24. O critério de inclusão usado foi score ≥15da escala de fanatismo supracitada.

Tabela 2.

Escala de fanatismo – Football Supporter Fanaticism Scale23

Conceito  Categorias  Indicadores  Índices 
Preferência clubística
Adesão
Autoimagem como apoiante  1‐5 
Acompanhamento da equipa regularmente na TV, no estádio ou na televisão  1‐5 
Importância ser apoiante da equipa  1‐5 
Quão apoiante os seus amigos acham que é  1‐5 
Quão importante é que a equipa ganhe  1‐5 
Com que frequência usa roupas alusivas ao clube  1‐5 
Aversão  Equipa que mais odeia  1‐5 

Os jogos de futebol incluídos no estudo foram os dérbis ou clássicos da época 2015/2016, os jogos da Supertaça de Portugal 2015 e 2016, das finais da Taça de Portugal 2015 e 2016, as últimas cinco jornadas do Campeonato Nacional de Futebol 2015/2016 e os jogos europeus a partir da fase de grupos e jogos da Seleção Nacional Portuguesa de Futebol no Campeonato Europeu de Futebol, que decorreu em 2016 em França.

Cada indivíduo foi monitorado com Holter no dia do jogo da sua equipa e em período homólogo à hora do jogo em dia controlo (se o jogo ocorreu num dia da semana – o dia controlo foi também dia da semana; se o jogo ocorreu ao fim de semana – o dia controlo foi ao fim de semana). (Figura 1)

Figura 1.
(0.23MB).

Protocolo do estudo e endpoints avaliados. SCA: Síndrome coronária aguda; AVC: Acidente vascular cerebral.

Definido o endpoint primário como o composto de ECV (morte, acidente vascular cerebral [AVC], re‐enfarte, angor ou arritmias mantidas 12h após o jogo).

Foram caracterizados ainda como endpoints secundários: episódios de fibrilhação/flutter auricular, taquicardia supraventricular (TSV) não mantida, taquicardia ventricular (TV) não mantida, extrassistolia supraventricular (ESSV) e extrassistolia ventricular (ESV) total durante o jogo. (Figura 1).

Variáveis contínuas foram expressas em média ± desvio padrão ou mediana com amplitude interquartil consoante a validação ou não da normalidade. As variáveis categóricas foram descritas em número de ocorrências ou em percentagem. A análise comparativa entre o dia do jogo e o dia de controlo nas diversas variáveis foi feita com o teste de Wilcoxon ou o teste do qui‐quadrado. Para análise comparativa das diferenças em relação ao resultado do jogo foi usado o teste de Kruskal‐Wallis. Na análise estatística foi usado o SPSS versão 22.0 para Windows (SPSS Inc., Chicago, Illinois) e os resultados dos testes estatísticos foram considerados estatisticamente significativos quando o valor p < 0,05.

Resultados

Foram incluídos 82 doentes do sexo masculino, avaliados em 23 jogos, cujas características basais se encontram sumarizadas na Tabela 3. A idade média foi 61 ± 10 anos, 59% EAMcEST prévio (56% dos quais com revascularização completa), 100% sexo masculino. Dos 82 indivíduos estudados, 28% eram apoiantes do SCP; 35% do SLB; 20% do FCP e 17% da Seleção.

Tabela 3.

Características basais e clónicas de acordo com o clube

  Total [n = 82]  Vitória [n = 51]  Empate [n = 4]  Derrota [n = 27]  p‐valor 
Idade  61 ± 10  62 ± 11  53 ± 14  60 ± 9  0,17 
Sexo masculino  100%  100%  100%  100%  ‐ 
Tempo [jogo ‐ evento agudo]  186 (48‐596)  235 (54,5‐728)  207 (121‐324)  181 (44,5‐551)  0,88 
Clube< 0,001 
SCP  28%  35,3%  ‐  18,5%   
FCP  19,5%  11,8%  ‐  37%   
SLB  35,4%  33,3%  ‐  44,4%   
FPF  17,1%  19,6%  100%  ‐   
Antecedentes
Doença coronária  20,7%  23,5%  ‐  18,5%  0,5 
HTA  53,7%  52,9%  50%  55,6%  0,97 
Dislipidemia  56,1%  56,9%  50%  55,6%  0,96 
Diabetes mellitus  23,2%  19,6%  ‐  33,3%  0,21 
Obesidade  9,8%  11,8%  ‐  7,4%  0,66 
Tabagismo  56,1%  55%  75%  55,6%  0,49 
DAP  4,9%  5,9%  ‐  3,7%  0,82 
História familiar  9,8%  7,8%  25%  11,1%  0,51 
Diagnóstico0,74 
STEMI  58,5%  56,9%  50%  63%   
NSTEMI  25,6%  25,5%  50%  22,2%   
Angina instável  15,9%  17,6%  ‐  14,8%   
Classe Killip0,1 
Killip 1  89%  96,1%  75%  77,8%   
Killip 2  9,8%  3,9%  25%  18,5%   
Killip 3  1,2%  ‐  ‐  3,7%   
Killip 4  ‐  ‐  ‐  ‐   
Troponina I max  32 (1,2‐99)  12,7 (0.7‐50)  64,8 (39‐142)  42,6 (4,7‐125,6)  0,16 
FEVE  55 ± 9  54 ± 10  57 ± 10  56 ± 8  0,85 
N.° vasos0,96 
DAC 1 vasos  32.9%  33%  25%  33,3%   
DAC 2 vasos  24,4%  23,5%  25%  25,9%   
DAC 3 vasos  40,2%  39,2%  50%  40,7%   
DAC TC + 3 vasos  2,4%  3,9%  ‐  ‐   
Tipo tratamento0,16 
Médico aprimorado  20,7%  29,4%  0%  7,4%   
ICP  76,8%  68,6%  100%  88,9%   
CABG  2,4%  2%  0%  3,7%   
Medicação
AAS  97,6%  98%  100%  96,3%  0,85 
Clopidogrel  26,8%  27,5%  0%  29,6%  0,45 
Ticagrelor  54,9%  47,1%  100%  63%  0,07 
ACO  2,4%  2%  0%  3,7%  0,85 
IECA/ARA  89%  86,3%  100%  92,6%  0,54 
Beta‐bloq  87,8%  88,2%  50%  92,6%  0,05 
Estatina  97,6%  96,1%  100%  100%  0,54 
ADO  19,5%  21,6%  0%  18,5%  0,57 
Insulinoterapia  6,1%  3,9%  0%  11,1%  0,39 
Nitratos  19,5%  25,5%  0%  11,1%  0,19 
Amiodarona  2,4%  2%  0%  3,7%  0,85 
Diurético  17,1%  19,6%  0%  14,8%  0,56 
Diferença FC media [jogo‐controlo]  3,9 ± 7,6  3,7 ± 7,2  3,5 ± 9,8  3,7 ± 7,3  0,97 
Escala de stress percebido  19,6 ± 5,6  19,7 ± 6  19 ± 2,4  19,4 ± 5,4  0,89 

ACO: anticoagulante oral; ADO: antidiabético oral; ARA: antagonistas recetores angiotensina; FC: Frequência cardíaca; FEVE: Fração de ejeção do ventrículo esquerdo; IECA: inibidor da enzima conversora da angiotensina.

Valores expressos em percentagem (%); média ± desvio padrão (95% intervalo confiança) ou mediana (amplitude interquartil). Os testes usados para comparação de variáveis foram Kruskall‐Wallis e qui‐quadrado quando apropriados.

Tendo em conta o total de indivíduos em estudo, observa‐se que o tempo mediano desde o evento agudo até ao jogo avaliado foi de 186 dias (AIQ 48‐596), 21% dos doentes tinham antecedentes de DAC antes do evento index, 53,7% de hipertensão arterial, 56,1% de dislipidemia, 23,2% de diabetes mellitus, 56,1% eram fumadores ou ex‐fumadores e 9,8% tinham antecedentes de história familiar de DAC (Tabela 3).

Durante o evento agudo prévio, 89% evoluíram em Killip I, a troponina I máxima durante o internamento foi 32 (AIQ 1,2‐99) e a FEVE média a data alta foi 55 ± 9. Relativamente à anatomia coronária, 32,9% apresentaram doença de um vaso, 24,4% doença de dois vasos, 40,2% doença de três vasos e 2,4% doença do tronco comum e três vasos; 76,8% tiveram tratamento percutâneo durante o evento índex, em 2,4% o tratamento foi a cirurgia de revascularização coronária e em 20,7% foi a terapêutica médica aprimorada.

Quando avaliados os resultados, a população em estudo era homogénea relativamente ao diagnóstico, antecedentes pessoais, bem como evolução clínica durante o internamento (p > 0,05; Tabela 3).

Não houve também diferença estatisticamente significativa entre a medicação em curso dos doentes tendo em conta o resultado (p > 0,05, Tabela 3). A frequência cardíaca média dos doentes aumentou na hora de jogo comparativamente à mesma hora no dia controlo em média 3,9 ± 7,6, com esse aumento a ser independente do resultado (p = 0,97, Tabela 3; Figura 2).

Figura 2.
(0.23MB).

Frequência cardíaca média do dia do jogo comparada com o dia controlo em período homólogo ao dia do jogo – A: De acordo com o resultado; B: Na população total estudada.

A Perceived Stress Scale média foi de 19,6 ± 5,6 (Tabela 3), semelhante em ambos os grupos avaliados (p = 0,89).

Endpoint primário [ECV às 12h]

Não houve diferença estatisticamente significativa tendo em conta os eventos cardiovasculares e o resultado (p = 0,85).

No follow‐up de 12h não se registou morte, acidente vascular cerebral, re‐enfarte ou arritmias mantidas. Houve dois episódios de angor durante o jogo, (um apoiante da Seleção no jogo do Europeu de Futebol a 06/07/2016 entre Portugal e País de Gales que terminou com a vitória da Seleção; o outro, apoiante do FCP a 28/08/2016 num encontro entre SCP e FCP que terminou com a derrota do FCP, sem tradução eletrocardiográfica.

Endpoints secundários

Durante o período avaliado foram registados cinco episódios de TV não mantida em cinco indivíduos, com três episódios a acontecerem durante o jogo e dois episódios de TV não mantida a ocorrerem em dois indivíduos durante o período controlo. Tabela 4. Registo ainda para seis episódios de TSV não mantida durante o jogo em seis indivíduos. Durante o período avaliado jogo e período homólogo controlo não se registaram episódios de fibrilhação auricular nem flutter auricular (Tabela 4).

Tabela 4.

N.° de episódios de taquicardia supraventricular, taquicardia ventricular e FA/Flutter auricular

  Jogo  Controlo  p‐valor 
Taquicardia ventricular não mantida  NS 
Taquicardia supraventricular não mantida  NS 
Fibrilhação auricular/Flutter auricular  NS 

NS: não significativo.

Quando avaliados os vários endpoints secundários de acordo com o resultado, não houve diferença relativamente aos episódios de ESSV, ESV, TV não mantida e TSV não mantida (p > 0,05; Tabela 5). Na Tabela 5 está expresso o número de episódios dos vários endpoints secundários avaliados de acordo com o resultado, com cerca de três episódios de TV não mantida a acontecerem em três indivíduos em que o clube de apoio ganhou (dois desses episódios a acontecerem durante o jogo) e dois episódios de TV não mantida a acontecerem em dois indivíduos em que o clube de apoio perdeu (um dos episódios durante o jogo).

Tabela 5.

Estratificação do número de indivíduos em termos de episódios de ESSV, ESV, TSV e TV não mantida durante o jogo comparativamente ao período homólogo de controlo

  Vitória  Empate  Derrota  p‐valor 
Extrassistolia supraventricular total
Sem diferença  12  10   
Menos episódios  15  0,64 
Mais episódios  24  10   
Extrassistolia ventricular total
Sem diferença  20  13   
Menos episódios  18  0,11 
Mais episódios  13  11   
Taquicardia ventricular não mantida
Sem diferença  48  26   
Menos episódios  0,8 
Mais episódios   
Taquicardia supraventricular não mantida
Sem diferença  45  24   
Menos episódios  0,97 
Mais episódios   
Discussão

Este é o primeiro trabalho prospetivo, em doentes com doença arterial coronária conhecida, a avaliar a relação entre assistência de jogos de futebol em Portugal e eventos cardiovasculares de acordo com o resultado obtido pela equipa de apoio.

Os vários estudos não são conclusivos relativamente à incidência de eventos cardiovasculares nos dias de jogos de futebol importantes. Por exemplo, Berthier et al. relataram uma redução da ocorrência de eventos cardiovasculares durante os jogos, com a particularidade do país em estudo ter ganhado a competição. A mortalidade por enfarte do miocárdio em homens nesse estudo foi significativamente menor no dia da final da competição (Campeonato Mundo 1998 em França) comparativamente com os dias controlo (23 casos versus 32,6 casos, RR 0,71, IC 95% 0,55 a 0,98), enquanto nas mulheres houve uma diminuição não significativa do número de mortes por enfarte do miocárdio (RR 0,65, IC 95% 0,45 a 1,16)11.

Por outro lado, Marques‐Vidal et al. e Barone‐Adesi et al. não encontraram aumento de ECV despoletados por jogos de futebol. Na população estudada por Barone‐Adesi et al. não houve aumento de enfarte agudo do miocárdio na nação entusiasta de futebol da Itália nos dias em que a seleção italiana de futebol jogou em três grandes torneios (Mundial 2002 e 2006 e Campeonato Europeu de 2004)16,17.

Destaca‐se de forma muito interessante o facto de dois estudos terem resultados controversos, usaram população exposta ao mesmo evento internacional, mas feito em países diferentes. Durante o campeonato europeu de futebol de 1996, quando a Holanda foi eliminada pela França, houve um aumento da mortalidade cardiovascular entre os homens holandeses, com diminuição da mesma na população francesa12,13.

De forma inversa, e à semelhança de Wilbert‐Lampen et al., que, durante Mundial 2006 na Região da Baviera relataram um aumento da taxa de eventos cardíacos nos dias em que a equipe alemã jogou, também Borges et al. registaram que os jogos de futebol do Mundial (1998, 2002, 2006 e 2010), em particular os jogos brasileiros, estiveram associados a aumento da incidência de enfarte do miocárdio, mas não na mortalidade14,15.

Os jogos incluídos neste trabalho são ditos pelo público como «importantes» e com elevada carga emocional. Além disso, dado o substrato arritmogénico fibrótico dos doentes incluídos (doentes com EAMcEST e doentes com SCAsEST sem revascularização incompleta) poder‐se‐ia empiricamente associar esses jogos a eventos cardiovasculares. São vários os mecanismos propostos que justificam a relação de gatilhos emocionais e eventos cardiovasculares, inclusive alterações fisiológicas agudas, como o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, que transitoriamente aumenta o risco de rutura de placa e trombose e diminui o limiar para fibrilhação ventricular25.

De facto no nosso trabalho houve um aumento da frequência cardíaca média durante o jogo quando comparada a mesma hora do dia controlo (Figura 2), independentemente do resultado (vitória ou derrota) da equipa de apoio. Apesar disso, esse aumento da carga catecolaminérgica que se pressupõe em associação ao aumento da frequência cardíaca não se traduziu em aumento de eventos cardiovasculares major, como morte, re‐enfarte ou AVC ou arritmia malignas mantidas. É, no entanto, de realçar dois episódios de angor durante o jogo em dois apoiantes de equipas em que o resultado final foi inverso.

São vários os autores a mostrarem que o resultado poderá ser um fator chave para a incidência de ECV. Os resultados contraditórios de populações diferentes do mesmo evento reportados por Witte et al. e Toubiana et al. foram também encontrados por Kirkup et al., nos quais a mortalidade atribuída a enfarte agudo do miocárdio e AVC aumentou significativamente nos homens (risco relativo 1,28; IC 95% 1,11‐1,47), nos dias em que a equipa de futebol local perdeu em casa12,13,18.

Para além do estímulo adrenérgico, é defendido por alguns autores que assistir a eventos desportivos pode contribuir para o risco cardiovascular pela ocorrência de outros comportamentos, tais como fumar ou beber em excesso26. Esse aspeto não foi tido em conta como fator de confusão no nosso trabalho, não é, no entanto, consensual que a comida, o álcool ou a compliance na toma de medicação possam contribuir para eventos cardiovasculares associados à visualização dos jogos de futebol, dado que não há consistência nas admissões hospitalares por ECV em vários torneios de futebol que envolvem as mesmas equipas27.

Acredita‐se também que o stress crónico contribua para o desenvolvimento e a progressão da doença e a morte cardiovascular. Os mecanismos subjacentes a essa associação são complexos e incluem uma combinação de fatores não só comportamentais, mas também fisiológicos, tais como o aumento da tensão arterial e da frequência cardíaca, a redução da sensibilidade à insulina ou mesmo a disfunção endotelial. Há alguma evidência de que níveis altos de stress percebidos estão associados a pior prognóstico28–33.

No nosso trabalho o perceived stress médio dos doentes foi de 19,6 ± 5,6, nos dois doentes com angor registado durante o jogo o perceived stress foi de 17 num e 23 noutro, claramente dentro do intervalo definido pela média ± desvio padrão.

Tratando‐se de doentes com antecedentes eventos coronários prévios, a abordagem comportamental mais cautelosa e calma a um evento potencialmente de stress com medo de um novo evento poderá também justificar em parte o menor perfil de ansiedade a assistir a um jogo de futebol e consequente diminuição de risco de gatilho de um ECV.

Fatores como acompanhamento médico regular e boa compliance à terapêutica prescrita, nomeadamente com terapêutica anti‐isquémica aprimorada (destaca‐se, por exemplo, 90% de uso de betabloqueante na população estudada, assume‐se tal como sugerido pelas recomendações europeias estarem com a dose máxima tolerada), podem justificar a baixa incidência de ECV, levanta‐se a questão se se poderá extrapolar esses dados a doentes sem DAC conhecida mas com fatores de risco cardiovasculares importantes.

Este estudo deixa em aberto, para um estudo de maior dimensão, se o facto de o aumento catecolaminérgico presente durante o jogo de futebol se possa traduzir num aumento de ECV, principalmente em populações de elevado ou muito elevado risco cardiovascular, independentemente do conhecimento da presença de DAC e independentemente da medicação em curso, que abra hipótese ao papel profilático de medidas não farmacológicas ou farmacológicas.

Limitações

Este estudo apresenta algumas limitações a considerar. Em primeiro lugar, foi desenhado como um estudo piloto, pelo que o número de indivíduos incluídos foi pequeno. Uma outra limitação prende‐se com o facto de se tratar de um estudo unicêntrico. Em terceiro lugar não teve em conta fatores comportamentais normalmente associados à assistência de jogos de futebol, como o fumar e beber, obviamente a considerar num estudo de maior dimensão de forma a excluir qualquer fator de confusão. Não foram incluídos doentes que assistiram aos jogos no estádio ou que acompanharam o jogo na rádio, facto que poderá estar associado a diferentes perfis de ansiedade e consequente diferente risco de gatilho de ECV. Este estudo foi desenhado para avaliação de gatilhos emocionais assistindo aos eventos desportivos, não foi possível eliminar o viés de no dia controlo haver outro tipo de gatilhos emocionais para eventos cardiovasculares.

Conclusão

O resultado do jogo não se associou a diferente incidência de eventos cardiovasculares em homens com substrato isquémico e arrítmico por antecedentes de DAC com terapêutica médica aprimorada que assistiram a jogos de futebol na televisão. Medidas preventivas como terapêutica médica aprimorada ou mesmo comportamentais poderão explicar a baixa incidência de eventos cardiovasculares.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesses.

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