Caso clínico
VIH e doença coronária – quando a prevenção secundária é insuficiente
HIV and coronary disease – When secondary prevention is insufficient
Ana Sofia Carvalhoa,1,, , Rui Osório Valenteb,1, Luís Almeida Moraisc, Pedro Modas Danielc, Ramiro Sá Carvalhoc, Lurdes Ferreirac, Rui Cruz Ferreirac
a Serviço de Medicina Interna, Hospital Egas Moniz, Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, Lisboa, Portugal
b Serviço de Medicina Interna, Hospital Beatriz Ângelo, Loures, Portugal
c Serviço de Cardiologia, Hospital de Santa Marta, Centro Hospitalar Lisboa Central, Lisboa, Portugal
Recebido 06 Abril 2016, Aceitaram 03 Outubro 2016
Resumo

A terapêutica antiretroviral (TARV) alterou o paradigma da infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), conhecendo‐se o risco aumentado de doença coronária nestes doentes.

Apresenta‐se o caso de um homem de 57 anos, melanodérmico, com coinfecção VIH‐2/vírus hepatite B, com controlo adequado; diabetes mellitus tipo 2, insulino‐tratado e dislipidemia. Internado por enfarte agudo do miocárdio, sem supradesnivelamento ST. Realizou cateterismo ao 4.° dia de internamento, documentando‐se doença de dois vasos (segmento médio da coronária direita [CD] [90% estenose] e 1.ª obtusa marginal [OM1] com estenose de 95%). Colocaram‐se dois stents revestidos, sem intercorrências. Teve alta sob dupla antiagregação (ácido acetilsalicílico 100mg/dia e clopidogrel 75mg/dia) e restante terapêutica dirigida à doença coronária. Recorreu ao serviço de urgência quatro horas após a alta por pré‐cordialgia com irradiação ao membro superior esquerdo, tendo‐se diagnosticado enfarte agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST nas derivações inferiores. Realizou coronariografia uma hora após o início da dor, que revelou oclusão de ambos os stents. A tomografia de coerência ótica (OCT) revelou boa aposição do stent na CD, trombos intra‐stent e dissecção com início na margem distal do stent. Realizou‐se angioplastia de ambas as artérias, com sucesso.

A trombose aguda dos stents pode ser explicada pelo aumento do potencial trombótico conferido pelo VIH e pela diabetes. Não existem recomendações específicas relativas à TARV na prevenção secundária após síndrome coronário agudo. A abordagem multidisciplinar destes doentes é essencial para a sua orientação adequada.

Abstract

Highly active antiretroviral therapy (HAART) has created a new paradigm for human immunodeficiency virus (HIV)‐infected patients, but their increased risk for coronary disease is well documented.

We present the case of a 57‐year‐old man, co‐infected with HIV‐2 and hepatitis B virus, adequately controlled and with insulin‐treated type 2 diabetes and dyslipidemia, who was admitted with non‐ST elevation acute myocardial infarction. Coronary angiography performed on day four of hospital stay documented two‐vessel disease (mid segment of the right coronary artery [RCA, 90% stenosis] and the first marginal). Two drug‐eluting stents were successfully implanted. The patient was discharged under dual antiplatelet therapy (aspirin 100 mg/day and clopidogrel 75 mg/day) and standard coronary artery disease medication. He was admitted to the emergency room four hours after discharge with chest pain radiating to the left arm and inferior ST‐segment elevation myocardial infarction was diagnosed. Coronary angiography was performed within one hour and documented thrombosis of both stents. Optical coherence tomography revealed good apposition of the stent in the RCA, with intrastent thrombus. Angioplasty was performed, with a good outcome.

The acute stent thrombosis might be explained by the thrombotic potential of HIV infection and diabetes. There are no specific guidelines regarding HAART in secondary prevention of acute coronary syndromes. A multidisciplinary approach is essential for optimal management of these patients.

Palavras‐chave
Vírus da imunodeficiência humana, Trombose de stent, Doença coronária
Keywords
Human immunodeficiency virus, Stent thrombosis, Coronary disease

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